terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Busca


Metade dos nossos erros na vida vem do fato de que sentimos quando deveríamos pensar e pensamos quando deveríamos sentir.   (Lhurt Collins)


Estudar sempre foi uma das minhas grandes paixões.  E esse binômio, pensar/sentir, tem sido meu objeto de ocupação já de longa data. Sempre me pareceu que a essência da vida gira em torno dessa combinação: pensar/sentir. É aí que está a orientação adequada para um correto agir.

            E como podemos conhecê-los melhor? Como identificá-los? Como selecioná-los e utilizá-los com lucidez e acerto? É possível subordiná-los às diretrizes da inteligência? Há possibilidade de exercermos fiscalização sobre os mesmos?

Não tenho muitas respostas a oferecer. Não tenho verdades a apresentar. Ainda assim, continuo num crescente buscar. Outras fontes já me foram deveras úteis na minha caminhada particular. No entanto, ainda trago comigo uma bagagem volumosa de questionamentos. As  ciências, os métodos parecem-me ferramentas por demais interessantes.

A busca do conhecimento quer seja acerca de mim mesmo, dos meus semelhantes, dos mundos mental e metafísico, a Sabedoria Eterna e a minha conexão com o Criador, é um combustível que mantêm uma chama interna viva. E esta, à procura das razões dessa nossa existência.

Manhã de Domingo - 7 de junho


Fiz meu chimarrão. Peguei minha cadeira de praia, meu boné, um bom livro e fui. Fui a um lugar chamado Morro das Pedras.  Mar grande, bravio, ondas agitadas. Um verdadeiro espetáculo. Acomodei-me o mais próximo possível, desejava ver aquilo de perto. Lugar ideal para refletir. Lugar ideal para sentir.

Já instalado, servi uma cuia. Momento ímpar. Decidi que o livro poderia esperar. Todavia estava ciente que poderia ter de sair correndo a qualquer momento. Claro, se desse tempo. Ondas em série quebravam à minha frente. Dei-me conta do privilégio que estava tendo.

Nesse vai-vem da água formou-se uma grande onda. E com toda a força arremessou-se contra as pedras e boa parte desintegrou-se no ar. Senti sua névoa sobre mim, seu gosto salgado em meus lábios. E isso me fez refletir.

Sim, segundos antes, essas gotículas de água que me umedeceram a pele estavam no fundo do mar. O sal que agora experimentava em minha boca fazia parte do oceano. A água que sorvia no chimarrão, circulava no subsolo. A erva mate, nas folhas de uma planta. 

Dei-me conta que tudo estava sendo colocado ao meu dispor. Tudo aquilo que eu precisava para viver. As estrelas estavam sintetizando todos os elementos necessários para que a minha vida fosse possível. O universo conspirando a meu favor.

Se o universo todo conspira a meu favor, por que deveria eu temer uma onde se insinuando à minha frente? Porque deveria eu ter medo do mar? Mesmo que uma onde me abraçasse e me levasse mar à dentro, não seria isso um ato amoroso? Por acaso, uma “onda” qualquer não vai, dia desses, me levar? Por que temer?

E senti o medo me deixar. E aqueles momentos fazem parte hoje, das melhores sensações que já experimentei.

As Crenças


De antemão, cabe pequena advertência. A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento.
Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência.
O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é um criador de gado.
Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.
A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea nada se aniquila, tudo se transforma”. Se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa, mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.
Por isto, prefiro a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.
            Por que digo isto? Porque me foi solicitado falar sobre crenças. Sim, crenças e minha relação com as tais.
            Mas o que se entende exatamente por crença? Noto que também daí podem resultar as mais variadas interpretações. Surgem conceitos de toda ordem. Poder-se-ia dizer apenas: É a certeza que se tem de fatos que se não podem comprovar e coisas que se não vêem. Ao menos por ora.
Como ilustração, poderia citar a Cosmologia atual. Dois são os entendimentos que dominam, basicamente, o momento:
1 - Tudo começou espontaneamente, ao acaso.
2 – Houve um agente causador.
Duas teorias, duas crenças. Alguém pode provar? Não! Ou, pelo menos, ainda não. Note-se a ausência de qualquer tipo de religiosidade.

Seguindo essa linha de raciocínio, poder-se-ia, agora, perguntar: Quando o homem saberá tudo sobre o átomo? Simples: quando souber fazer um. Quando terá domínio sobre uma estrela? Da mesma forma: quando souber fazer uma. Quando o homem terá pleno entendimento sobre Deus, o Criador?
Eu disse Criador? Perdão! Quis dizer Creador.
A questão é saber se tenho algum entendimento sobre Deus? Não, não tenho. Alguém tem? Gostaria por demais conhecê-lo.
Entre a ignorância e o fanatismo existem possibilidades mil. Entre céticos e crentes há discursos incontáveis. Quem está certo? Alguém? Ninguém? Todos? Não me arrisco a dar palpites. No entanto, desconfio de todos.
Não houve, até hoje, alguém que se me apresentasse confessando ter uma proposta equivocada. Tampouco, de segunda categoria. Todos, exatamente todos, afirmam ter a verdade. Sim, todos. De um espectro que vai do esdrúxulo ao razoável, do lastimável ao interessante, todos juram saber. E sabem tanto, que até nome aos deuses dão.
Susan Sontag, jornalista americana, afirmou certa ocasião: “Não tenho medo daqueles que procuram a verdade, mas tomo muito cuidado com aqueles que dizem já tê-la encontrado”. A minha prudência particular sugere o mesmo.
A verdade simplesmente é. É o que é!
Vi, certa feita, um homem lançar-se do alto de um edifício. Cria poder voar. Espatifou-se. Sua crença ignorava a lei da gravidade. E lei é lei. Lei é verdade. Lei é. É o que é.
Crenças têm fabricado morte. Mortes estúpidas e aos montes. Crenças têm levado à guerra. Todavia, também tenho visto crenças produzindo verdadeiros milagres. E vidas foram restituídas onde já parecia impossível. Poderia alguém afirmar que o mundo seria melhor se não as houvesse?
Não me restam dúvidas, quando posso escolher entre fatos e suposições. Mas devo dizer que me sinto muito à vontade, com o Creador. Pois não creio, mas sei que Ele simplesmente é o que é.

Filha Querida


Acredito que já estás crescida o suficiente para entender a lógica que motiva um pai que gostaria de dizer-te:
Amei-te o suficiente 
para ter te perguntado aonde irias, com quem irias e a que horas voltarias.
Amei-te o suficiente 
para não ter ficado em silêncio e fazer com que tu soubesses que aquele  novo amigo não era boa companhia.
Amei-te o suficiente 
para te deixar ver além do amor que sempre senti por ti, os despontamentos e também as lágrimas nos meus olhos.
Mais do que nunca, amei-te o suficiente 
para te dizer NÃO, quando sabia que poderias me odiar por isso.
Agora preciso dizer: 
Amo-te o suficiente para te deixar assumir a responsabilidade de tuas ações, mesmo que as penalidades possam me partir o coração.
E esta é a mais difícil  de todas as batalhas. Mas estou contente, venci...   
Porque no final tu venceste também! 
E qualquer dia, quando teus filhos, meus netos,  forem crescidos o suficiente para entender também a lógica que motiva pais e mães, quando eles te perguntarem se o teu pai era mau, talvez lhes digas:
Sim, meu pai era um chato.

A Prisão de Cada Um - Martha Medeiros


O máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la. A liberdade é uma abstração.
Liberdade não é uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento para vestir. No entanto, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado no pescoço. Diga-me qual é a sua tribo e eu lhe direi qual é a sua clausura.
São cativeiros bem mais agradáveis do que o Carandiru: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luis Estevão, só que temos que advogar em causa própria e hábeas corpus, nem pensar.
O casamento pode ser uma prisão.  E a maternidade, a pena máxima.  Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos vôos.  O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia.  Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza.
Viver sem laços igualmente pode nos reter.  Uma vida mundana, sem dependentes para sustentar, o céu como limite: prisão também.  Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho.
Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados.  É uma opção consciente.  Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real, entre quatro paredes.
Nosso crime é estar vivo e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós - nascer - foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria e exclusão.
Brindemos: temos todos, cela especial.